MARIANA E NÓS
Hugo Tornelli
Mariana é um nome de muitas mulheres e
também de uma cidade no interior de Minas Gerais. Ela ficou famosa
nacionalmente com a catástrofe que se abateu sobre ela: o rompimento de duas
barragens gerou mortos e feridos. Além disso, um problema ambiental foi gerado com
a morte de animais de imediato e porque a lama é tóxica, pois contém silício e
minério de ferro, algo que pode afetar o meio ambiente por muitos anos.
Trata-se de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro
despejados no local. A Barragem de Santarém e a Mina do Germano estavam com
licenças de operação vencidas e o Ministério Público já havia alertado em 2013
do risco à Samarco Mineração, responsável pelas mesmas.
Essa catástrofe foi noticiada
amplamente, mas já está praticamente esquecida. As suas consequências ambientais
e para as pessoas afetadas ainda continuam. Porém, esse acontecimento é importante
para que haja a percepção da relação entre meio ambiente e sociedade. Uma
empresa capitalista foi a responsável direta pela catástrofe e foi protegida
pelas instituições estatais.
Aqui temos capital/estado/população.
Quem sofreu as consequências foi a população. Quem gerou a catástrofe foi o
capital. Quem foi conivente foi o Estado. Agora fica claro que o velho Marx
sempre teve razão sobre o estado ser só um comitê para gerir os interesses da
burguesia. A população é atingida, sofre pela perda de pessoas, pelos
ferimentos físicos, pela destruição do seu meio ambiente, pela destruição de
seus bens materiais e pela destruição de sua história, sua cidade.
A população sofre com a destruição
ambiental. Mas não é a população em geral e sim parte dela. Os mais pobres, os trabalhadores,
aqueles que têm menos renda e recursos. As classes populares são atingidas e
prejudicadas pela ligação orgânica entre capital e estado, antes e depois da
catástrofe. A luta de classes é revelada na dominação da classe dominante sobre
o meio ambiente e população de uma cidade interiorana.
Outro elemento é revelado: a questão ambiental
não é uma questão de todos. Ela não preocupa a todos da mesma forma. Nem todos
produzem destruição ambiental. Nem todos sofrem da mesma forma os impactos
negativos da destruição ambiental. Aqui é fácil perceber a relação entre questão
ambiental e classes sociais. Quem produziu a catástrofe ambiental de Mariana? O
capital, com a cumplicidade do seu comitê, o Estado. Quem sofreu os impactos
negativos da catástrofe de Mariana? As classes populares. Quem se preocupa hoje
com a catástrofe de Mariana? Poucos, entre eles os antigos moradores da cidade.
O caso de Mariana pode ser generalizado: quem destrói o meio ambiente é o
capital, quem sofre os impactos negativos dessa destruição são as classes
populares e quem se preocupa com isso são os atingidos e uma minoria que
observa e se posiciona do lado destes. Novamente a luta de classes aparece de
forma bem clara.
As condições das barragens, as licenças
vencidas, a ação governamental e empresarial, apenas mostram, nitidamente, o
conluio capital e estado, e o que aparece irresponsabilidade é, no fundo,
beneficiamento do capital pelo estado. Quantas catástrofes já não ocorreram
pelo mesmo motivo? Quantos trabalhadores já não sofreram coisas semelhantes por
causa disso? Para que serve o Estado? Quem precisa do capital? Quem sofre com a
existência desses dois monstros reais e tantas vezes desmascarados, mas que
continuam sendo figuras místicas e intocáveis para os ideólogos de plantão e
ingênuos de todos os tipos? Aqui é possível acrescentar o papel dos meios de comunicação,
dos intelectuais, entre outros, também a serviço do capital. Omitindo informações
e afirmações, não aprofundando e explicitando o que está por detrás disso tudo.
As licenças vencidas significam menos despesas e mais lucro, a omissão estatal
significa aliança que deve ter efeito eleitoral, ou seja, benefícios mútuos.
A clareza da situação é apenas mais
uma prova do que existe hoje em dia e do que já existe há muito tempo: a destruição
ambiental é parte do processo de dominação do capital e este explora e destrói,
de acordo com seus interesses e com os serviços do Estado. Por isso a solução está
do lado dos trabalhadores, que precisam superar suas ilusões com governos,
partidos, outras instituições que fazem um discurso a seu favor e uma prática
que lhe prejudica e reproduz sua situação de exploração e degradação humana.
Mariana é a nossa sociedade em miniatura e assim como a cidade do interior de
Minas Gerais foi arrasada com a lama do capital e conivência do Estado, esse é
o nosso futuro global se não houver uma reação daqueles que precisam reagir.
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